Um grito passeava pela brisa da tarde na pessoa de Maurílio Torres... Um santo homem da congregação dos Anunciados, prostrada na praia das Águas Santas, observando-o com penetração, agradecia à ordem de Deus a abençoada estratificação do emocional humano. De seu nome Maurílio, o olhar atento desenvolveu-se naquelas terras, sob o tecto de um pai pescador e de uma mãe emocionalmente ausente, mas atenta à vida devota. Na puberdade, procurou desesperadamente o conforto pessoal, no espaço bíblico onde Deus morava, aberto a todos, procurando na mente o que lhe faltava na alma. O Sr. Torres era observado no seu jeito disforme, já esbarrado no álcool, mas também nos preceitos que jazem cristalizados em si, em vórtice, que só amolece, só se acalma, a álcool. Até a sua morte foi peculiar, sob a égide de revelação, no suspiro de libertação, numa voz que se quer ouvir, no exalo de um perfume que nos quer que inebriar, como a espuma que o mar solta, como os raios que o sol espreguiça, como as folhas que dançam pelo ritmo do vento, como a lágrima que rola pela dor que liberta.
Tendo por solo a réproba acção de Eva, o padre Vítor laborava na ideia de um homem renascido das cinzas originais. Refletia nos canais perniciosos tecidos pelo tempo, que labutavam no escarnecimento da justa luta pelas leis de David. Assomou-se em apaziguamento ao promontório sobre o mar, mas sucumbiu às reflexões que militarmente lhe ocupavam o seu espírito religioso, pelas palavras de uma menina. Aquela que era uma personagem considerada ignóbil pela sociedade local, pelos atos de impureza a ela imputados, sendo esta cruz o machado preso num tronco de menina, mas vestidas de eventual engano ao olhar alheio, sob a forma de assomo de uma verdade que espreita, insegura, em receio de ser escancarada. A menina Árida cresceu am ambiente conventual, por abandono, por não ser de ninguém, por não servir para alguém que a preenchesse de matéria feita de alegria, de cuidados, de paciência, de palavras doces, de bem querer. Só que encontrou o conforto duro das pedras calcárias que a rodeavam. E nada sabia sobre si, nada era consciência de si, do seu existir, do seu valor. As pedras do que já foi um convento, foram as paredes que conheceu até aos treze anos da sua idade. E neste desencontro com o amor, foi de muitos, os que a quiseram. Não de quem ela quis. E teve muitos, mais do que de sapatos, brincos, calças e olhos, onde procurou algum amor.
Numa manhã, narrou a dita rameira ao padre Vítor que, nas suas lides, havia encontrado, nos pares que não eram seus, penas em algumas partes não expostas ao colectivo, que achava que um dia o Homem ainda ia voar, no encontro com o sonho. Que brota em cada um. Talvez, ela pertencesse a algo, aos que querem voar. Num lugar seu de verdade. Um santo encontro domingueiro havia encontrado a despedida dos paroquianos, quando a menina Árida lhe atropelou as emoções, numa entrada esgazeada pela sacristia adentro. Dominado pelas virtudes agastadas da pobre, suspirou de intolerância, procurando esvaziar-se desse sentimento, no prelúdio da sua sujeição ao perdão a uma menina que, ironicamente, havia crescido em ambiente conventual. A pobre, pensava ele. Haviam decorrido três luas desde o ponto do universo que determinou o conhecimento ministrado pela pobre rapariga e, ao qual, o padre reagiu com reprovação; conteve, no entanto, no meritório, a formalização de imprecações que dali a levassem. Gesticulou em fúria, a expressão da vontade que a Árida saísse dali com o seu segredo, que fosse com penas ou sem penas.
O edifício da congregação expunha uma velhice ignorada, a qual, perdera, na prática, o sentido de confraria. Isolado no espaço que sempre habitou, o cónego presidia, pela manhã, às missas domingueiras na capela contígua, conduzindo a palavra do senhor e regando compaixão com a sua bênção no Homem. Este impossibilitado, por natureza pecador, de fugir ao pagamento do futuro lar junto de nosso senhor. Naquela manhã, congregado à sua causa, decidiu o pároco manear uma caneta num anúncio, a ministrar em Assembleia próxima, de audição e comunhão da Palavra, na ansiedade de quem teme o advir. O texto teve um parto difícil e comeu-lhe a vista e os cotos das velas por sete períodos nocturnos. O ciclo criativo foi dominado por formulações como meteoróides, ardentes sob o fogo de inverno, mas jazentes na forma de cinza, sob a égide do seguinte bordado:
“Caros irmãos, não haverá horas de demissão! Desde o berço que vos coloco lado a lado com os desígnios de Deus. Os dias são de provação, os nossos valores podem perecer, vencidos por energias desconhecidas e perniciosas. E não haverá um fogo terno para vos aquecer! Atentai! A liberdade do Homem está na palavra do senhor! Não a procureis noutro lugar ou quereis caminhar na solidão eterna? E tal é tão verdadeiro como eu estar aqui diante de vós, irmãos! Olhai as aves no céu, tão belas no seu esplendor de criação divina. Não violeis os desígnios de Deus ou não tereis o perdão divino! Ámen!”
O entardecer desceu cedo para a estação de um outono ainda jovem. Uma revelação de morte, em circunstâncias inusitadas, em que algumas penas dançavam em redor do corpo inerte, recusando-se, sem pudor, às leis da gravidade. O pároco refletia, esbracejando a fúria pelo acontecimento como quem derrama uma bênção. A menina Árida procurou o amigo que era a sua torre, onde se renascia princesa, olhava hipnotizada a dança das penas, sob um rendilhado de luz dourada que invadia o quarto, cúmplice. Maurílio Torres havia percorrido na embriaguez o estreito que o ligava à vida, sob a luz e o cântico do vento na dança do que tem a coragem de ser flexível. Havia sido um homem muito peculiar. Num gesto abnegado, o senhor padre ofereceu ao corpo os seus santos serviços, libertando-o dos demónios que na sua mente pairavam no ar, de forma atentatória das leis divinas. O rosário refletia ansiedade e não apaziguou a sua inquietude.
O grito de Maurílio Torres habitou sem guelras em águas profundas, na ignorância da sua própria voz. No entanto, micro-explosões emocionais escancararam algumas portas de ferrolho, reflectidas num símbolo de liberdade, as ditas penas, que acompanharam eternamente a sua campa.
E os meses passaram ... sol e lua, sem vez, nos desígnios que se soltam na música dos dias.
A menina Árida aprumava o chapéu de penas que evocava o tom vintage que tanto adorava. No exterior ouviam-se as ondas a esculpir os rochedos calcários, com declarada expressividade. A manhã deslocava-se como uma chita para uma celebração florida, guiada pelo padre Vítor e um almoço de confraternização, ambos pelo nascimento de um ilustre antepassado, D. Manuel dos Passos. Sob o rendilhado de espuma, algumas gaivotas disputavam um peixe, como se pertencessem ao mar negro. E o caminho não era longo. Acelerou o passo em sonho. A menina árida, de coração.
O ascendente de D. Passos, havia sido conquistado a dessalgar a água do mar e o processo começava e terminava com o seu mero toque. Pudesse também tornar a vida doce, pensava Ela, já na cavidade circular, agora reserva natural de água doce, que é sempre primeiro de sal. Mesmo após a sua morte, no poder que a vontade de muitos abre. A manhã fazia-se santa, entoavam-se cânticos de vento e os passos soletravam o destino, benzido no encontro com a menina Árida, junto a uma das tascas floridas, adornada de risos vermelhos, com Nuno Álvaro. Este homem, que a procurava com entoações de afecto. E já era um pouco seu. A sonoridade reflectia a alegria do encontro, entretida a vinho e a paixão subterrânea. Para além deles, nas imediações, troavam as malhas e o resmungo de uma mulher, pelo vinho que encharcou o marido. O qual sacudiu a mulher, para que o deixasse em paz e fosse rezar, que o padre não tardava. Em crescente aproximação, quatro jovens em tertúlia, esbarraram de forma acintosa na menina Árida. E o Nuno Álvaro despejou frieza na rapariga e diluí-se no grupo de velhos amigos e também nos comentários jocosos à menina Árida, ato falhado por vergonha do seu sentir, que precisou depois de sacudir a álcool..
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