segunda-feira, 20 de setembro de 2010

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O grito de Maurílio Torres habitou sem guelras em águas profundas, na ignorância da sua própria voz. No entanto, micro-explosões emocionais escancararam algumas portas de ferrolho, reflectidas num símbolo de liberdade, as ditas penas, que acompanharam eternamente a sua campa. No exterior, ouviam-se as ondas a esculpir os rochedos calcários, com declarada expressividade. Sob o rendilhado de espuma, algumas gaivotas disputavam um peixe, como se sobrevoassem o mar negro. A menina Árida aprumava o chapéu de penas que evocava o tom vintage que tanto adorava! A manhã deslocava-se como uma chita para uma celebração florida, guiada pelo padre Vítor e um almoço de confraternização, ambos pelo nascimento de um ilustre antepassado, D. Manuel dos Passos. O ascendente havia sido conquistado a dessalgar a água do mar e o processo começava e terminava com o seu mero toque. O inesperado eternizou o local, uma cavidade circular que se transformou numa reserva de água doce. A manhã fazia-se santa, entoavam-se cânticos de vento e os passos soletravam o destino, benzido no encontro com a menina Árida, junto a uma das tascas floridas, adornada de risos vermelhos, com Nuno Álvaro. A sonoridade reflectia a alegria do encontro, entretida a vinho e a paixão subterrânea. Para além deles, nas imediações, troavam as malhas e o resmungo de uma mulher, pelo vinho que encharcou o marido, que, por sua vez, sacudiu a mulher, que o deixasse em paz, que fosse mas é rezar, que o padre não tardava. Em crescente aproximação, no intencional, quatro jovens em tertúlia, esbarraram de forma acintosa na menina Árida. Num movimento de inflexão emocional brusco, o menino Nuno Álvaro despejou frieza na rapariga, diluíndo-se no grupo de velhos amigos nos comentários jocosos à menina Árida e sacudiu, depois, a álcool, o sangue da traição, movida a vergonha, no engano do seu sentir.

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