segunda-feira, 20 de setembro de 2010

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E seguiu-se o depois… as palavras a integrarem o sangue que lhe corria nas veias e a definirem o seu caminho profissional.
Congregado à casa de Deus, decidiu o pároco concretizar um anúncio, a ministrar em Assembleia próxima, de audição e comunhão da Palavra, um texto que pretendia ver serenar os seus receios… A construção comeu-lhe a vista e os cotos das velas por sete períodos nocturnos. O ciclo criativo foi dominado por formulações como meteoróides, ardentes sob o fogo de inverno, mas jazentes na forma de cinza. Rendeu-se, por fim, à maldita limitação humana. O labor produzido teve a sua expressão condicionada sob a égide do seguinte bordado: “Caros irmãos, não haverá horas de demissão! Desde o berço que vos coloco lado a lado com os desígnios de Deus. Os dias são de provação, os nossos valores podem perecer, vencidos por energias desconhecidas e perniciosas. E não haverá um fogo terno para vos aquecer! Atentai! A liberdade do Homem está na palavra do senhor! Não a procureis noutro lugar ou quereis caminhar na solidão eterna? E tal é tão verdadeiro como eu estar aqui diante de vós, irmãos! Olhai as aves no céu, tão belas no seu esplendor de criação divina. Não violeis os desígnios de Deus ou não tereis o perdão divino! Ámen!”
O entardecer revelou uma morte em regime de cumplicidade: algumas penas praseiravam-se em redor do corpo inerte como em festejo fúnebre… recusando-se sem pudor à gravidade, reflectiu o pároco, esbracejando a fúria consigo mesmo pela ideia como quem derrama uma bênção. A menina Árida olhava hipnotizada a dança das penas sob um rendilhado de luz dourada que invadia o quarto.
Maurílio Torres havia percorrido na embriaguez o estreito que o ligava à vida, sob a luz alimentada pela morte e o cântico do vento na dança de folhas. Havia sido um homem muito peculiar. Disforme na forma e no conteúdo, esbarrava continuamente no álcool e na igreja católica, como que preso num vórtice do qual rompiam pernas enfurecidas. Até na sua morte o fez. Num gesto abnegado, o senhor padre ofereceu ao corpo os seus santos serviços, libertando-o dos demónios que pairavam no ar de forma atentatória das leis divinas, num rosário ansioso e interminável, que não apaziguou a sua inquietude.

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